22 abril, 2010

Margem

Como ela conseguia? Aquilo me intrigava de uma forma a não me deixar acreditar nem pensar em nada mais.
Era ao outro que enganava ou a si mesma? Que sede era essa de viver que acabava com tudo de um só gole? Ceifava as perguntas que não cessavam.
Senti-me pequena, quebradiça, precária perante tais descobertas. Era uma atividade que ultrapassava o ético, o moral, o convencional. Derivava-se de uma coragem selvagem, percebia pelo cheiro, bicho que era.
Notei que o que me incomodava era o jeito como ela fazia parecer correto, o avesso. Não havia aprendido nada sobre descência?
Vivia sem pudores. A sua existência era visceral. Se alimentava do momento, dos instantes em que a vida parecia escorrer-lhe pelos dedos. Nessas ocasiões é que desvelava-se, deixava-se ver em sua totalidade de fera.
Naquele dia em que a encarei, senti uma curiosidade quase infantil em saber como havia nascido tamanha besta. Não que fosse ruim, mas havia um quê de nocivo naquela sinceridade toda que aflorava. Talvez fosse verdade demais para uma vida acimentada em portões. Ela era tada janelas.
Por alguns instates, sem mesmo ter a noção do que representava, quis ser como ela, quis aquela liberdade que deixava derramar. Aquele desbunde de vida. Sem receios, sem travas, sem fivelas.
Senti meu corpo vivo e passei a inquirir-me. A vontade era de sair correndo, cavalgando sem norte, deixando-me levar sem nenhum paradeiro, apenas para longe daquele ser que me fazia sentir uma fraude.

Pisquei.

Burlei a mim mesma, pensei. Não era a ninguém que traía, mas a mim mesma. Foi diante do espelho que me admiti. Eu era um dolo. Serpenteava entre minhas próprias trapaças e fazia delas meu alimento diário. Corroendo-me pelas lembranças que assombravam minhas entranhas a cada instante em que acreditava-me exata, pisquei.

Ela desapareceu.

Aquilo era rio profundo.

4 comentários:

Anne Dantas disse...

"Foi diante do espelho que me admiti." Incrível como desde os tempos da Branca de Neve até hoje o espelho continua sendo esse mal caráter sincero.

Panis disse...

Como sempre vai Luazinha em meio à criação, com alma atormentada de artista. Fiquei muito feliz por sua lembraça! Entre os estudos de uma pós, algumas artes em andamento para uma exposição de fundo de quintal, alguns bicos para completar o orçamento, o acompanhamento dos filhos distantes impedem uma dedicação maior querido almanaque. Mas hoje vou postar algo em sua homenagem. Bjs!

BETO PALAIO disse...

Luazinha, adorei o corrimão de coisas que desceram da escada da literatura entre duas piscadelas tuas...

Alô, Panis... Eis a nossa adorada musa de volta!

Linn Anastassakis... disse...

Lu, adorei quando disse que um dia tudo terá outro sabor! Também acredito muito na força das palavras escritas e só assim, escrevendo, consigo desabafar, me abrir e me livrar de todo sentimento que me entope. Me faz bem!

"Pisque outra vez e ela voltará à sua margem cada dia mais selvagem, mais bicho. Mais disposta."

Beijinhos...tenha um bom final de semana! :)